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Ter um filho com necessidades especiais: como enfrentar essa nova realidade?

Manoela Emilia Lima Malta Psicóloga, especialista em Deficiência Mental e Auditiva

O nascimento de um filho começa bem antes do parto. Ao ser confirmada a gravidez, os pais iniciam algumas indagações e fantasias de como será a criança, por exemplo: dúvidas quanto ao sexo, se menino ou menina, cor dos olhos, dos cabelos, com quem se parecerá fisicamente etc. Durante nove meses, pai e mãe vão construindo uma ideia do filho que irá nascer; imagens procedentes de suas próprias identificações, aspirações e frustrações.

E se, ao nascer, surge uma criança muitas vezes diferente daquela imaginada? E se esta diferença acontecer em relação à “normalidade”, quer seja física ou psíquica? O filho esperado é um real desconhecido.

Em geral, o encontro com uma criança com malformação, com deficiência intelectual, física ou sensorial (visual e auditiva), ou com danos neurológicos, não é um encontro ao qual os pais estejam preparados. Em muitos casos, eles têm a sensação de estarem frente a um estranho. Na data do nascimento ou quando descobrem a enfermidade, ao invés de ser um momento feliz e de comemoração, se torna um dia devastador e vem carregado de dúvidas, medo, tristeza etc.

Esse período é de fortes vivências emocionais tais como: alteração do estado de ânimo, desejo de morte para si e para o bebê, sensação de impotência, negação, tristeza e ansiedade. Depois poderá surgir a reorganização, ou seja, a aceitação, que demanda tempo, todavia muitos casais jamais elaborarão o luto pelo filho imaginado. Luto esse necessário para a aceitação do filho real.

A maneira como os pais enfrentam a experiência de ter um filho portador de necessidades especiais depende também dos tipos de enfrentamento e dos mecanismos de defesa utilizados por eles para tornar suportáveis suas angústias. Ocorre um choque frente ao diagnóstico de uma criança especial; os pais buscam manter o controle, mas estão ansiosos e com temores. Vem a raiva ocasionada pela violação das expectativas, e toda essa frustração e repressão podem se transformar em depressão. Ao se culparem, os pais podem desenvolver comportamentos passivo-agressivos e de superproteção que podem comprometer a aprendizagem da criança durante o seu desenvolvimento. A duração dessas reações pode ser variada: para uns podem ser passageiras, para outros, duradouras ou permanentes.

Um mecanismo de defesa que pode surgir nos pais como uma forma de aliviarem sua dor, e por não conseguirem aceitar a realidade que desencadeia ansiedade, é a negação. A negação surge para ajudar o indivíduo a lidar com a perda, oferecendo um alívio temporário, mas não soluciona o problema.

A manutenção dessa defesa por um longo tempo pode prejudicar a tomada de decisões necessárias para o enfrentamento do problema. Pais que não conseguem enfrentar a situação, utilizando-se da negação por muito tempo, podem prejudicar o desenvolvimento da autoimagem adequada e da autoestima da criança, dificultando a superação de dificuldades concretas.

Mas como lidar com essa nova realidade? Aceitar depois de um período de luto e de reorganização interna, amar incondicionalmente aquele novo ser, permitir-se ser amado por ele e enfrentar o medo talvez seja o melhor caminho. Não o mais fácil, mas o que irá levá-los a superarem os obstáculos que surgirão na difícil e prazerosa tarefa de educar um filho, tornando-se uma família única, facilitadora do crescimento saudável de sua criança, tenha ela necessidades especiais ou não.